
Dizem que se compra um livro pela capa e foi justamente o que fiz.
Na última semana li o livro “When Hitler Stole Pink Rabbit”, de Judith Kerr. Publicado pela primeira vez em 1971 com uma edição de aniversário de 50 anos de 2017, e conta com 282 páginas.
A obra estava em exposição para leitura no mês de agosto nas bibliotecas de West Sussex, Inglaterra, em comemoração ao aniversário da Segunda Guerra Mundial.
Ao invés de pegar emprestado na biblioteca simplismente pela sinopse o livro me persuadiu a comprá-lo.
Primeiramente Judith Anna Kerr é uma autora renomada em literatura infantil. Em 2012 foi nomeada Oficial da Ordem do Império Britânico (OBE) nas honras de Aniversário pelos serviços de literatura infantil e educação sobre o Holocausto.
Engraçado o bastante ela começou a carreira como escritora quando seus filhos estavam na escola em processo de alfabetização. E seus contos voltados para seus filhos, criam um entorno de um mini diário pessoal para guardar suas memórias.
O motivo que a levou a escrever o livro, foi que ao contar a história de sua infância na Alemanha durante as guerras, ela de família judia não praticante se viu ainda pequena sendo obrigada a sair de Berlim dias antes da vitória de Hitler.
Na época ainda não havia sido instaurado a perseguição aos judeus, até o momento eram apenas ameaças do que “poderia ser”, porém seu pai Alfred Kerr, era um crítico ferrenho do partido nazista na época. Alfred era muito reconhecido na época por seus textos inscisivos contrários a eleição de Hitler e os possíveis malefícios a Alemanha.
O pai de Judith era um jornalista e autor judeu conhecido e respeitado que escreveu muitos livros. Eles era de classe média e moravam em uma casa grande perto de Grunewald em Berlim. Na época a família tinha condições de pagar uma governanta e uma babá.
A vida dessa família muda após a ligação de um policial alemão alertando sobre uma lista do partido nazista com o nome das pessoas juradas para serem aniquiladas após a eleição e é o nome de Alfred que está entre os primeiros destinados a morrer.
Solução? Fugir com a família e se refugiar em alguns dos países do lado aliado.
Quando Judith conta a seus filhos a história de sua infância, Tracy e Matthew falam a mãe que deve ter sido muito difícil ter sido refugiado em uma época tão hostil.
Ao ouvir isso, ela cria dentro de si a razão para escrever esse conto, mas na visão de uma garotinha de seus 9 para 10 anos que precisou aprender novos idiomas, viver em outros países, conhecer várias pessoas, trocar instantaneamente a situação financeira de classe alta para classe muito baixa e tentar se readequar em contraste com todo os acontecimentos que ocorriam naquele período.
Julia Kerr, sua mãe era musicista, pianista muito reconhecida na época, sendo assim a família tinha empregados e Julia tinha seus compromissos além da vida matrimonial.
“Hitler odiava os judeus em geral, mas ele particularmente detestava os escritos do meu pai.” (Notas do autor, 2017)
Seu pai que estava doente dias antes da eleição, recebe uma ligação inesperada, ele estava com 40º de febre, mas a tal pessoa, que era esse policial alemão conta da tal lista da qual constava seu nome e que dizia as pessoas que seriam executados primeiro pelo partido, mesmo doente, ele auxiliado por sua esposa e amigos intímos parte para a Suiça, alguns dias antes da eleição de Hitler na Alemanha. Apoiado por sua esposa que organiza a mochila pega o primeiro trêm para Praga, era a maneira mais rápida de sair da Alemanha. Já se sabiam em pormenores que o passaporte dele seria confiscado após a eleição.
Onkel Julius, era curador no Museu de História Natural de Berlim e amigo da família em especial de Alfred auxilia nessa viagem. Ele é zoólogo e ama os animais mais do que tudo, principalmente os macacos do zoológico.
As crianças, Judith e seu irmão Max acordam sem papa no outro dia pela manhã, e Julia diz as crianças que papa foi embora por um tempo, mas que ninguém pode saber disso, a história deveria ser: Papa estava acamado em casa.
Até para nossos amigos??? pergunta Anna. Julia ressalta que sim! Ninguém deve saber que papa não está mais na Alemanha.
E então a vida da família Kerr muda drasticamente, alguns dias após a saída de seu pai era a vez de sua mãe, irmão e ela partirem, agora já com um lugar organizado para viverem na Suíça.
Ela precisa escolher um de seus ursinhos para levar e fica em dúvida entre seu coelhinho rosa ou seu cachorro de lã, e então de maneira precipitada escolhe o cachorro de lã para a viagem. A despedida de seus amigos é as pressas, e Onkel Julius mais uma vez auxilia ao empacotar os livros da família.
Ele tem um bom relacionamento com Anna, muitas vezes a leva ao zoológico e promete ir com ela quando ela retornar à Alemanha.
Já no trem Anna (nome do meio de Judith), lê o inscrito do livro dado pela mãe de seu amigo Gunther chamado “They Grew to be Great” – Obrigada por toda coisas amáveis – alguma coisa para ler na viagem.
É nessa viagem que Anna se indaga que a maioria das pessoas famosas, como escritores tiveram uma infância dificil. Aparentemente isso era um indício de que a pessoa poderia tornar-se famosa algum dia.
Ela saiu da Alemanha pensando “infância difícil… infância difícil…” esse seria o sinal para ela tornar-se uma pessoa famosa no futuro, uma renomada escritora.
Na Suíça tempos depois a empregada da família que ficou na Alemanha procura emprego em outra casa, já que Alfred não consegue manter o salário dela na Alemanha.
E descobrem que após a eleição todos os bens da família, os movéis foram todos confiscados pelo estado nazista, já não eram mais pertencentes a família Kerr, é o que Alfred diz a filha ser o regime socialista de governança.
Conservam a casa ainda como bem, mas possuem dificuldade de vender, pela reputação do escritor, inimigo do regimo vigente da Alemanha da segunda guerra.
Na Suíça Alfred possui dificuldade para vender seus artigos e após alguns meses são obrigados a irem morar na França.
Na Suíça eles falavam alemão e alugavam um quarto em um hotel, é nessa época que eles se contrastam com o primeiro tipo de racismo referente a sua crença.
Chega ao hotel uma família alemã com duas crianças. Anna e Maxx ficam empolgadíssimos com a chegada dessas crianças que poderiam brincar com seus amigos suiços do hotel. Porém, as crianças são proibidas pelos pais de brincarem com Max e Anna porque ambos eram judeus, os pais haviam reconhecido Alfred.
Julia Kerr fica indignadíssima e sai fora de si, “meus filhos que não podem brincar com essas crianças”, e seus amigos suecos, pois bem, precisam escolher com que brincar, mas mantém a lealdade a seus antigos amigos judeus.
Era hora de ir para Paris, eles estavam em dúvida entre Paris ou Londres, Julia queria a Inglaterra, pois sabia falar inglês porque foi criada por uma senhora inglesa já Alfred era fluente em francês, precisava se pensar nos custos familiares, então Paris foi destino.
Da mesma forma que da primeira vez Alfred foi primeiro, lá ele aluga um apartamente e conseguem uma garota austríaca Grete para ajudar com os afazeres domésticos, porém a tal garota havia prometido a mãe que iria dormir no horário dito por ela.
Ao chegarem da Suíça para a França eles estão famintos, e pedem a Grete que prepare o jantar, infelizmente era hora da garota dormir, é então que Julia vai cozinhar batatas na cozinha o que demonstra toda a falta de dotes culinários que a matriarca da família possuía.
Max e Anna possuem muita difículdade para aprenderem francês, e Anna se sente tão arrasada por que não entendia nada o que era falado em sala de aula.
Julia é bem maleável e possui diplomacia para lidar com as crises existênciais da filha pré-adolescente.
A família fica amiga de um casal francês e pouco tempo depois começa a ser rotineiro as visitas de fim de semana de ambas as famílias. Monsier Fernand era adorável e ensinou a eles os modos franceses…
A culinária, e em pouco tempo as criança já comiam pratos típicos franceses com vinhos acrescentados nos recipientes, lesmas e todo tipo de comida que anterior aquela data havia receio de se provar, porém com a anfitriã certa aprenderam a gostar.
Ah, e Julia se profissionalizou na cozinha virando uma hábia cozinheira, os lanches de Anna começaram a ser comentados pelos amigos agora feitos pela garota.
O francês foi aprendido, e Max já até aparentava ser um típico garoto parisiense e Anna com um sotaque francês quase perfeito.
Eles haviam se transformado para melhor… Porém, havia um problema, Alfred estava com dificuldade de vender seus artigos. Ele escrevia para o jornal parisiense que era feito para refugiados, esses aos montes, de judeus alemãos, mas tal como seus leitores ele não havia dinheiro para esbanjar.
Isso faz com que ele não tenha dinheiro para pagar o aluguel no dia , é então que o dono do local diz que ele deveria pagar naquele dia, Julia se irrita e começa a falar alto, é então que o dono diz a eles que Hitler estava certo em se livrar de pessoas como eles.
Não era a primeira nem a última vez que ouviriam desaforos como esses.
Onkel Julius, era um naturalista, amigo da família. Em uma visita enquanto estavam na Suíça Alfred havia pedido a ele que não voltasse para a Alemanha porque as coisas mudariam. Foi Onkel Julius que incentivava Anna sobre o amor aos animais, ele era um naturalista e tinha o costume de levar as crianças Kerr para o zoológico para ver os animais, o que era sua paixão.
Anna em uma data celébre ganhou enquanto refugiada um bracelete com pingentes de animais enviada por Julius.
Porém, a família recebe a visita de Herr Rosenfeld, amigo de Julius. Ele vem entregar um relógio do amigo e trazer notícias ruins.
Após uma investigação do partido nazista, é encontrado indícios que Onkel Julius possuía uma avó judia, isso foi o bastante para ser demitido de seu serviço e proibido de ir ao zoológico, ele entra em depressão profunda e decide acabar com a própria vida.
Havia um inscrito dizendo no objeto entregue: Adeus, desejo a você o melhor, assinado Onkel Julius. Alfred fica desconcertado, e fica por muito tempo passando os dedos no relógio que outrora fora de uma das pessoas mais leais a ele.
Felizmente, eles recebem uma carta em seguida vinda de Londres, da qual a peça escrita por Alfred havia sido aprovada e seriam dados a ele pelo roteiro £1000, 00 pounds, a peça falava sobre Napoleão.
Era hora de mais uma viagem, agora essa determinaria a vida de Anna e Max, o destino era Londres, mais uma vez era hora de partir.
Tempo de despedidas dos amigos feitos, da tia Sarah, dentre outros… Agora as crianças não tinham mais medo do novo, porque eles sabiam que em alguns meses tudo ficaria bem como sempre.
E então se encerra o livro com Anna fazendo a travessia via porto de Newhaven e pegando o trêm para Londres, o mesmo barulho de trêm de anos atrás na Alemanha era algo memorável, “infancia difícil”, talvez diferente, empolgante certo mesmo é que aquela família já não era mais a mesma.
Em conclusão, uma leitura bem simples, com um linguajar voltado para um público 8+, com muitos detalhes, mas a ideia principal que me foi retirada da obra é como a união famíliar é importante na construção de personalidade de uma criança, eles estavam bem, porque ambos os pais estavam sincronizados em um objetivo comum, o bem dos quatro.
Julia apoiou o marido em todas as ocasiões, Alfred tentava dar a mulher todo o conforto que podia, mesmo não tendo mais condições, e as crianças tinham pais que estavam ali o tempo inteiro os apoiando, sendo assim, tornando a vida deles segura na medida do possível.
Outra curiosidade é que Julia Kerr ao chegar em Londres encontra emprego como secretária, e durante os julgamento de Nuremberg é ela uma das tradutoras durante aqueles processos de crime de guerra.
Nas notas do autor, Judith fala sobre os SEs… E SE eles não tivessem tido aquela ligação do policial alemão, e SE eles tivessem saído após a eleição… Certamente não teriam uma história assim para contar.
Espero que tenham gostado.
Take care! X
Kerr, Judith. When Hitler Stole Pink Rabbit. Kerr-Kneale Productions Ltd 1971. Ireland. 2017.
Partes do livro para consulta: https://primestudyguides.com/when-hitler-stole-pink-rabbit/characters/papa?query=alfred%20kerr
Máteria do Telegraph sobre Judith. Vale ressaltar que ela que fazia os desenhos de seus livros, assim além de escritora ela era uma habilidosa desenhista: https://www.telegraph.co.uk/women/life/people-thought-judith-kerr-sweet-old-lady-always-last-one-standing/