
Há pouco mais de 10 anos, tomei a decisão mais importante da minha vida: aceitei o desafio de me aventurar pela Europa — mais precisamente, pela Inglaterra.
Era início de março de 2014. Eu deixava para trás um dia ensolarado de fim de verão no Brasil, embarcando no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, em um voo direto para o aeroporto de Heathrow, em Londres.
O destino final era Madrid, então grande parte dos passageiros no voo eram espanhóis, retornando para “su casita”. E ali estava eu, no meu primeiro voo de avião, ao lado de um francês que fazia conexão Inglaterra–Paris. Ele não estava voltando para casa, mas vindo ao Brasil por um curto período de intercâmbio, para lecionar numa universidade em Brasília.
Nossa conversa foi, no mínimo, divertida — começava em português, passava pelo espanhol e terminava em inglês. Eu estava tão empolgada que o coitado não conseguia dormir! No fim, ele ainda teve que me explicar como funcionava o aeroporto de Heathrow.
Ao nos despedirmos, ele me desejou sorte. Retribuí o gesto e segui meu caminho — cada um com seu propósito.
Primeiros Passos em Terra Estrangeira
Ao desembarcar no gigantesco aeroporto de Heathrow, fui direcionada à área de não europeus. Lá conheci dois rapazes: um do estado de Goiás e outro de Goiânia, filhos de brasileiros que haviam se conhecido na Inglaterra. Eles também estavam ali para resistir e se adaptar a uma nova realidade.
Com eles, percorri o caminho até a imigração, busquei minhas bagagens.
Lembro até hoje de um cheiro diferente no ar… leve, sutil.
Naquele momento, não sabia o que era — mas hoje entendo: era o cheiro da esperança, da possibilidade de uma vida nova.
Não senti medo, apenas um friozinho na barriga. Tudo aquilo era tão distante da minha realidade: passaporte, nacionalidade, costumes estrangeiros… eu não sabia quase nada. Mas estava disposta a aprender tudo do zero.
O Aeroporto Como Maternidade
Meu tio, em uma de suas reflexões, comparou o aeroporto à maternidade.
Segundo ele, quando você decide morar em outro país, o dia da chegada é como sair do berçário: você precisa reaprender tudo — idioma, cultura, hábitos, até mesmo o jeito de olhar para o mundo.
Recebi algumas instruções práticas que nunca esqueci:
- Lembre-se das três palavras mágicas: Excuse me, Sorry, Thank you.
- Não toque nas pessoas.
- Não fixe o olhar.
- O jantar é às 17h.
Mais do que tudo, aprendi uma palavra que se tornaria um mantra na minha vida:
TRY.
Tente. Experimente. Se permita.
A Primeira Viagem a Brighton e o Encantamento
Na primeira visita a Brighton, embarquei em um ônibus tomada pela empolgação.
No trajeto, ouvia pessoas conversando em diferentes idiomas — e aquilo me fascinava.
Percebi que estava, literalmente, no centro do mundo.
Um mundo que se misturava em sotaques, culturas, gestos, expressões…
Tudo isso dentro de um ônibus de dois andares.
Mas foi em Londres, ao ver o Big Ben pela primeira vez, que senti o ápice da realização.
Estava na ponte que liga o Big Ben à London Eye, quando levantei os olhos para cima — e me dei conta de que aquele era o momento que eu sonhava desde a adolescência.
Ali, entendi que tudo o que eu desejasse na vida, de alguma forma, seria possível.
O Tempo Passa… e a Gente Cresce
Os meses viraram anos.
Voltei ao Brasil, tive meu tempo sabático em casa, e hoje, ao olhar para trás, vejo o quanto cresci.
Foram muitos desafios, sim. Percalços, medos, recomeços.
Mas sinto um orgulho imenso de tudo que vivi e construí nessa década fora.
Aprendi que a vida é muito mais do que aquela cidade pequena no sul do Brasil onde nasci.
Lições de uma Década Vivendo Fora
E se hoje posso compartilhar algo com quem sonha ou está em processo de mudança para outro país, seriam estas lições:
1. Seja flexível
Nem tudo estará sob seu controle.
E, ao contrário do Brasil, você pode não ter apoio imediato de parentes ou amigos. Aprenda a confiar em você.
2. Não tenha medo de tentar (TRY!)
Se algo te assusta, experimente mesmo assim.
Muitas das melhores coisas da vida estão do outro lado do medo.
3. Respeite o novo, sem preconceitos
Preconceito é ignorância em forma de resistência. Se permita conhecer, aprender, expandir.
4. Aprenda o idioma e faça amigos
Antes de julgar alguém por não falar sua língua, esforce-se para aprender a da terra que você escolheu viver.
Você vai se surpreender ao perceber quantas pessoas diferentes têm ideias parecidas com as suas.
5. Esqueça os rótulos
Eles não definem ninguém. O que define são as ações, o caráter, a abertura para o outro.
6. Viva o momento presente
A intensidade de uma nova terra te impulsiona a viver com mais presença. Aproveite cada instante.
7. Exercite empatia, tolerância e fé em si mesma
Essas são as verdadeiras ferramentas de integração e crescimento.
Seja paciente com seus próprios processos. Tudo leva tempo.
8. Desapegue do passado
Você vai precisar deixar coisas (e pessoas) para trás.
Isso também é vida.
E sim: vai doer.
Mas é inevitável para crescer.
Como diria Amyr Klink:
“Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar a arrogância que nos faz doutores do que não vimos.”
E, de tudo que vivi até aqui, deixo uma última reflexão:
Try. Try your best.
E você verá que, no fim, o amadurecimento é inevitável.
Você pode amar ou odiar a experiência.
Mas só há uma maneira de saber: TENTE.