
Em algum momento da vida, todas nós nos sentimos como um feixe de ossos espalhados no deserto. Partes de nós ficam para trás como sonhos interrompidos, emoções silenciadas, instintos negados, dores não escutadas.
O trabalho interior começa quando reconhecemos que é nossa responsabilidade e também nosso direito de recolher esses fragmentos e restaurar a própria alma e isso muitas vezes é muito difícil.
Na tradição simbólica, La Loba, a mulher selvagem, nos ensina onde procurar aquilo que não pode ser destruído: nos ossos.
Parte humana que possui mais dificuldade para ser danificado.
La Loba, recolhe, com paciência e amor, cada parte esquecida e quando tudo está reunido, ela canta.
Cantar, aqui, não significa apenas produzir som.
É dar voz à alma é soprar vida sobre aquilo que adoeceu, foi reprimido ou ficou esquecido dentro de nós. É simbolico.
Essa imagem nos lembra que a cura não acontece pela negação da dor, mas pelo contato consciente com aquilo que precisa ser restaurado.
Existe uma figura ancestral chamada La Que Sabe — “aquela que sabe”. Ela representa a sabedoria feminina antiga, instintiva e corporal.
Uma sabedoria que não vem apenas do pensamento racional, mas do corpo, da intuição e da memória profunda da alma.
Tudo aquilo que possui valor psíquico pode ser recuperado, assim, nada do que fomos se perde completamente.
Carl Jung chamou esse campo interior de Inconsciente Coletivo ou Psique Objetiva, um território onde surgem imagens, sonhos, inspirações, experiências espirituais e processos de cura. É nesse espaço que a alma fala por símbolos, emoções e narrativas internas.
Toda jornada terapêutica ou espiritual é, em essência, uma travessia por esse território.
Uma antiga história judaica fala de quatro rabinos que tiveram acesso a uma visão sagrada.
Conta-se que, certa noite, quatro rabinos receberam a visita de um anjo.
Ele os despertou e os conduziu à Sétima Abóbada do Sétimo Céu, onde contemplaram a sagrada Roda de Ezequiel.
O primeiro rabino, após testemunhar tamanho esplendor, enlouqueceu e passou a vagar tomado pela raiva e pela confusão até o fim de seus dias.
O segundo adotou uma postura de negação:
“Foi apenas um sonho. Nada aconteceu de verdade.”
E seguiu sua vida como se nada tivesse sido tocado em seu interior.
O terceiro tornou-se completamente obcecado.
Falava sem cessar sobre o que havia visto, pregava sobre a Roda e seus significados, até perder-se em sua fixação e trair a própria fé.
O quarto rabino, porém, era poeta.
Pegou papel e flauta, sentou-se junto à janela e começou a compor canções sobre a pomba do anoitecer, sua filha adormecida no berço, as estrelas no céu.
A partir daquele momento, passou a viver melhor.
Essa história nos ensina que a melhor forma de nos aproximarmos do inconsciente profundo é com fascínio sem exageros e respeito sem retração.
Nem deslumbramento excessivo, nem cinismo defensivo.
Coragem, sim — mas sem imprudência.
Essa história nos oferece uma orientação preciosa: o contato com o inconsciente profundo exige equilíbrio. Nem negação, nem exagero, nem fascinação cega, nem cinismo defensivo.
Jung alertava que algumas pessoas se perdem ao supervalorizar experiências espirituais, enquanto outras se ferem ao subestimá-las. Por isso, ele falava de uma obrigação moral: sobreviver à experiência interior e encontrar uma forma de integrá-la à vida cotidiana. A verdadeira espiritualidade não nos afasta da vida ela nos enraíza nela.
Na linguagem simbólica da alquimia, diz-se que a mulher carrega a luz da vida em seu corpo.
Não apenas no coração ou na mente, mas em seu centro criativo, onde as sementes da existência são guardadas.
Quando uma mulher consegue ser jovem e velha ao mesmo tempo curiosa e sábia, instintiva e consciente — ela mantém viva a ligação com sua essência.
E mesmo que essa conexão tenha sido perdida, ela pode ser restaurada por meio de um trabalho terapêutico e espiritual contínuo.
Os ossos, nos mitos, representam aquilo que resiste. Simbolizam a alma que permanece mesmo após perdas, rupturas e transformações.
Reunir os ossos é aceitar que a alma precisa, de tempos em tempos, ser cuidada, ouvida e renovada. A psicoterapia, a meditação, a análise dos sonhos, a arte, a dança, os rituais, a escrita, a oração todas essas práticas existem por um motivo profundo: reunir os ossos.
Porque quando a alma está inteira, ela canta e essa canção é cura.