O barba Azul: A intuição que tenta nos salvar

Há histórias que não servem para embalar o sono, mas para acordar a alma. O conto de Barba Azul, revisitado por Clarissa Pinkola Estés em Mulheres que Correm com os Lobos, é uma dessas histórias.

Ele não fala apenas de um homem assustador, mas do predador natural da psique,  aquela presença que surge sorrateira e tenta nos afastar de quem realmente somos.

Ele representa tudo aquilo que desconfia da intuição, desvaloriza os instintos e tenta silenciar o fogo criativo da mulher. Por isso, ele precisa ser reconhecido e lembrado.

A psique feminina nasce selvagem e rica. Traz consigo a intuição afiada, a resistência silenciosa, a capacidade de amar com profundidade, de ouvir além das palavras e de enxergar no escuro. Mas o predador não cria, ele consome.

O Barba Azul tem um passado, esse passado “que quer esconder” ainda grita dentro dele.

Como um mago fracassado, Barba Azul não se alimenta da própria luz; prefere roubar a das outras. Ele fracassou na vida, ficou rico, mas não com aquilo que queria, e para suprir-se emocionalmente precisa destruir o sonho dos outros.

Toda criatura precisa aprender que predadores existem e ignorar isso não nos torna mais livres, apenas mais vulneráveis.

Sem esse aprendizado, a mulher se perde em sua própria floresta interna, tropeçando em relações, escolhas e promessas que parecem seguras, mas têm dentes escondidos.

No conto, a esposa mais jovem é a parte ingênua da psique. Curiosa, viva, ainda aprendendo. Ela erra, sim.

Abre a porta proibida, porém não é punida por isso… Felizmente sabendo da verdade e não se conformando com ela: ela sobrevive e sai transformada, mais atenta, mais inteira e capaz de reconhecer o perigo logo no primeiro olhar.

Essa história não fala só das jovens, mas também das mulheres que já caminharam muito e ainda assim se veem repetindo ciclos.

Às vezes, o predador é interno, veste novos nomes, rostos…

E, sem apoio ou escuta, o processo de reconhecimento fica pela metade. Se é que consegue ficar distintivo…

Clarissa nos apresenta o conceito de ANLAGE, também embasado nos ensinamentos de Carl Jung; aquela semente inicial que carregamos desde o nascimento. Um potencial vivo, pulsante, esperando para crescer. Na infância, aprendemos a reconhecer perigos com quem cuida de nós.

Mas, na adolescência e na vida adulta, o mundo faz barulho demais. Vozes externas tentam nos convencer a duvidar do que sentimos, a arriscar demais, a ignorar os sinais.

Barba Azul nos ensina que intuição não é exagero, e sim sabedoria antiga. E reconhecer o predador da psique é um ato de amor próprio, de coragem e de retorno à mulher selvagem que sabe, sente e se protege.

Porque quem aprende a ouvir seus instintos… não precisa abrir portas que cheiram a perigo.

Há um momento do capítulo em que Clarissa faz uma confissão bastante acalorada de indignação, consegui entender aquele sentimento que atravessou a página e atravessou minha alma.

Ao final do capitulo Estés faz um desabafo:

No meu consultório ouvi todas as desculpas que uma mulher poderia conceber.

Não tenho talento, não sou importante não tenho instrução, não tenho idéias, não sei como fazer, não sei o que fazer, não sei quando fazer. E o mais revoltante de todas: Não tenho tempo.

Sempre sinto vontade de sacudi-las até que se arrependam e prometam nunca mais contar mentiras. Mas não preciso sacudi-las pois o homem sinistro dos sonhos cumprirá sua função, e se não for ele, outro agente qualquer o fará.

E diz algo essencial: a consciência é a saída da caixa. É a saída da tortura.

Essas mulheres vão se envolver com o predador ao menos uma vez, antes de serem despertadas pelo choque.

Na natureza, uma mãe loba não hesita, ela ensina com rigidez e eficácia.

Ensina seus filhotes a reconhecer perigo:

  • Se for maior e ameaçador, fuja.
  • Se parecer fraco, observe antes de agir.
  • Se estiver doente, deixe em paz.
  • Se tiver espinhos, veneno, presas ou garras, recue.
  • Se cheirar bem, mas estiver cercado de garras de ferro…
  • passe direto.
  • Muitas mulheres, porém, não recebem esses ensinamentos básicos.
  • E então aprendem sozinhas.
  • Aprendem do jeito mais caro.

“Bem… a barba dele não é tão azul assim.” Esse é o pensamento da irmã mais nova antes de casar-se com o Barba Azul.

Aquela parte nossa que ainda quer acreditar. As irmãs mais velhas, em silêncio, representam outra coisa: O insight, a percepção que não grita, mas sabe. Ele tem uma aparência estranha.

Quando uma jovem se une ao predador, algo nela é capturado justamente numa fase em que deveria se expandir. Em vez de viver livremente, ela começa a viver de forma falsa. A promessa é sedutora: você será especial, será minha rainha.

Mas o plano real é outro: o anonimato da alma, e o controle total do outro.

Quando ele viaja, e ela pode ter acesso a casa toda. OBarba Azul diz: “Faça o que quiser.” E isso cria a sensação de “liberdade”. Faça o que quiser, “menos” …

Um controle ali enviezado por uma liberdade restritiva.

Mas ela não é livre porque não lhe é permitido registrar o que sabe, não pode guardar a memória e sem memória, não há defesa.

A mulher ingênua, pode ser facilmente seduzida por promessas de prazer, ascensão social, aprovação familiar, segurança, amor eterno ou paixão ardente. Tudo isso parece brilho… mas cobra um preço silencioso.

A chave do conto é clara: consciência e curiosidade.

A coragem de perguntar, não à toa, mulheres curiosas sempre foram chamadas de abelhudas. Perguntar nunca foi bem-visto quando o segredo precisa ser mantido. Bobagem tola!!!

Antigamente, havia mais portas em túmulos do que em casas. A própria imagem da porta indicava que algo de valor espiritual estava ali ou algo que precisava permanecer trancado. Nos contos de fadas, a porta é sempre uma barreira psíquica, um guarda diante de um segredo.

E a transformação começa quando fazemos a pergunta certa. Onde está essa porta em mim? O que existe atrás dela?

Quando a porta se abre, vem o cheiro de sangue, mas não é violência física. É o sangue da alma: a decepção.

O sangue é o que se sabe a memória do que foi vivido e não adianta tentar limpar a chave o que foi sabido não pode ser esquecido.

Os esqueletos atrás da porta representam a alma feminina: as partes mortas, caladas, interrompidas cedo demais.

E então surgem os irmãos, duas forças protetoras essenciais… a ESPERANÇA!

A primeira neutraliza o poder paralisante do predador.

A segunda substitui a mulher de olhos vendados por uma mulher de olhos vigilantes, com guerreiros ao lado, caso precise chamá-los. Cortar o assassino, aqui, não é destruir. É separar para reunir de forma correta.

Embora uma grande vertente da psicologia dê enfase as causas familiares na angustia dos seres humanos, o componente cultural tem o mesmo peso, pois a cultura é a familia da familia.

A Mulher Selvagem ensina que há momentos em que não devemos ser boazinhas, especialmente quando isso significa trair a própria alma. Quando a mulher aprende isso, ela reconhece rápido o que está errado e consegue empurrar o predador de volta ao seu lugar.

Ela não é mais ingênua, nem alvo, muito menos a meta. Esse é o antídoto mágico que faz a chave parar de sangrar.

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