Vasalisa, a Sabida: Aprender a confiar na intuição

Olá, queridos leitores.

Hoje quero falar com vocês sobre “Vasalisa, a Sabida”, um conto que nos ensina, de maneira profunda e simbólica, como resgatar a nossa intuição e despertar para a própria força interior. Essa história faz parte do livro que conquistou meu coração: Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés.

O conto começa com a enigmática frase:

“Era uma vez, e não era uma vez…”

Logo nas primeiras palavras, somos alertados: nem tudo é o que parece. Estamos entrando em um território simbólico, onde a realidade externa se mistura com o mundo da psique um espaço repleto de surpresas, perigos e também dons escondidos.

Vasalisa carrega no bolso uma pequena boneca mágica. À primeira vista, pode parecer apenas um objeto encantado típico dos contos de fadas. Mas, simbolicamente, essa boneca representa algo muito mais profundo: a nossa própria intuição. Ela é silenciosa, persistente e sempre presente. Quando nos sentimos perdidas ou inseguras, é essa voz interior que sussurra o caminho a seguir.

Ao longo da narrativa, percebemos que Vasalisa só encontra direção quando para, escuta e alimenta sua boneca, ou seja, quando nutre sua intuição. E talvez seja justamente essa a grande lição do conto: a sabedoria que buscamos fora já vive dentro de nós.

Vasalisa é uma menina cuja mãe, em seu leito de morte, lhe dá uma boneca mágica e diz para ela consultá-la sempre que estiver em dúvida ou perdida, pois a boneca a ajudará. Pouco depois, o pai de Vasalisa casa-se novamente, e a nova madrasta e suas duas filhas tratam Vasalisa com crueldade e desprezo, forçando‑a a fazer todos os trabalhos da casa. 
Quando a chama da lareira se apaga, a madrasta ordena que Vasalisa vá até a floresta escura pedir fogo à bruxa Baba Yaga, esperando que a menina seja devorada no caminho.
A floresta é assustadora, e Vasalisa caminha sem saber o caminho certo até que, a cada bifurcação, consulta a boneca, que gentilmente lhe indica a direção certa.
Ao chegar ao lugar de Baba Yaga, a bruxa, uma figura temível que vive numa casa sobre pernas de galinha concorda em dar a Vasalisa o fogo que ela procura somente se ela completar uma série de tarefas aparentemente impossíveis: limpar a casa, preparar alimentos e organizar tudo antes que ela voltasse para inspecionar.
Cada vez que Vasalisa não sabe o que fazer, ela consulta a boneca e, às vezes, segue seus conselhos até dormir, momento em que a boneca realiza silenciosamente os trabalhos por ela. Baba Yaga, surpresa por ver as tarefas completadas, dá à menina uma caveira com fogo um crânio que irradia luz e chama para que ela o carregue de volta.
Quando Vasalisa retorna para casa com o crânio flamejante, sua madrasta e as irmãs, assustadas com a luz e sem entender o que aconteceu, olham pela janela. O fogo que sai do crânio queima‑as até reduzi‑las a cinzas, libertando Vasalisa de sua opressão.

A história de Vasalisa parte de uma ausência: a morte da mãe. E esse não é um detalhe pequeno. Em muitos contos de fadas encontramos a criança sem mãe ou sem a mãe protetora, porque esse vazio simboliza um momento inevitável da vida: chega a hora em que precisamos nos virar sozinhas.

A morte da “mãe boa demais” representa algo profundamente simbólico. Não se trata apenas da perda física, mas da necessidade de deixar morrer aquela proteção excessiva que nos impede de criar nossas próprias garras. Para que a mulher intuitiva nasça, a filha precisa abrir mão da segurança infantil. E isso dói. Exige coragem, desapego e a disposição de atravessar a ansiedade de caminhar sem garantias.

É nesse cenário que Vasalisa começa sua jornada.

Ao sair de casa e enfrentar a madrasta e as irmãs cruéis, ela aprende rapidamente que ser gentil e obediente não garante segurança. Muitas mulheres crescem acreditando que bondade extrema é proteção, mas a vida ensina o contrário. Reconhecer a natureza sombria do mundo e das pessoas é parte do amadurecimento psíquico. Ser esperta não é ser má; é sobreviver e amadurecer.

As vozes críticas que aparecem na história representadas pelas megeras e madrastas são também vozes internas e culturais. São aquelas que dizem: “Você não é capaz”, “Não tem coragem”, “Desista”, “Fique no que é permitido”.

Muitas de nós já ouvimos algo parecido. Quando internalizamos essas falas, passamos a duvidar da própria capacidade. Tentamos ser ainda mais boazinhas, mais esforçadas, como se precisássemos provar nosso valor o tempo todo. Não é raro que mulheres criadas em ambientes que não valorizam seus talentos sintam a necessidade constante de se provar como se um reconhecimento simples exigisse três doutorados.

Mas Vasalisa carrega algo precioso no bolso: sua boneca.

Essa boneca é a intuição. E a intuição precisa ser alimentada. No conto, Vasalisa só encontra saída quando consulta, escuta e nutre sua pequena guia interior. Intuição não é mágica passiva; é prática. É um músculo que se fortalece quando usado.

Ignorada, enfraquece. Exercitada, torna-se um farol nas adversidades.

Ir à casa da Baba Yaga simboliza entrar em contato com o desconhecido dentro de nós aquela parte instintiva, intensa e muitas vezes assustadora que preferimos evitar. A Megera Selvagem representa essa força interior que não foi domesticada pelas expectativas sociais. É o nosso lado mais autêntico e poderoso.

Muitas vezes tememos essa dimensão porque ela inclui sentimentos como a raiva justa, a firmeza, a intensidade emocional e a capacidade de dizer “não”. Fomos ensinadas a suavizar essas características, como se fossem inadequadas. No entanto, amadurecer exige reconhecer e aceitar essa força.

Integrar o lado selvagem não significa perder a delicadeza ou a sensibilidade. Significa deixar para trás a fragilidade excessiva, aquela que nos impede de nos posicionar, e aprender a agir com autonomia, consciência e firmeza.

Na casa da Yaga, Vasalisa é submetida a tarefas aparentemente domésticas: lavar roupas, cozinhar, limpar, separar grãos. No entanto, simbolicamente, essas tarefas falam de algo muito mais profundo.

Lavar as roupas da Yaga é purificação. Nos arquétipos, as vestes representam a persona a forma como nos apresentamos ao mundo.

Lavar essas roupas é limpar a própria imagem, retirar resíduos psíquicos, renovar a identidade. Varrer o casebre é organizar o ambiente interno: limpar pensamentos, rever valores, eliminar da psique aquilo que é inútil ou tóxico.

Cozinhar é transformar matéria bruta em alimento, assim como transformamos experiências em sabedoria. Separar grãos é discriminar: aprender a distinguir o que serve do que não serve, o que deve permanecer e o que precisa morrer.

A vida não é apenas lógica. É instinto, ciclo, morte e renascimento. Servir ao não racional é reconhecer que dentro de nós existem forças criativas e destrutivas que precisam ser respeitadas. Ao cumprir essas tarefas, Vasalisa fortalece seu poder interior. Ela aprende a administrar energia, ideias e emoções com consciência.

Quantas vezes, após arrumar a casa, sentimos uma espécie de clareza interior? Ao organizar o que está fora, colocamos nossos pensamentos em movimento e impedimos que se acumulem e nos contaminem por dentro.

Outro aspecto fundamental de sua jornada é aprender a perguntar. Vasalisa questiona os mistérios os cavaleiros que representam a noite, o dia e o crepúsculo.

Perguntar é um ato de coragem. Buscar compreender os ciclos da vida, da morte e do renascimento amplia a consciência. Mas há um cuidado: conhecimento sem integração pesa. Saber demais, sem maturidade emocional, pode endurecer o espírito.

A sabedoria verdadeira exige tempo, digestão, silêncio.

As cores dos cavaleiros revelam energias que também habitam em nós: o negro da fertilidade e da transformação; o vermelho da vida, do desejo e do sacrifício; o branco da renovação e da liberdade espiritual. Reconhecer essas forças é reconhecer nossos próprios ciclos internos.

Ao final, quando o fogo surge e incendeia a casa das megeras, a cena pode parecer brutal. Mas o fogo é símbolo de transformação. Ele queima o que é falso, limitado, repressivo. Incendeia as estruturas que tentam nos manter pequenas e obedientes demais. O incêndio é um rito de passagem.

Vasalisa sobrevive ao fogo porque já não é a mesma menina. Ela atravessou a ausência da mãe, enfrentou a sombra, alimentou sua intuição, encarrou as tribulações e aprendeu a discriminar. Ela se tornou inteira.

E essa é talvez a grande mensagem do conto: o poder verdadeiro não vem da aprovação externa, mas da escuta interna. Quando confiamos na nossa boneca nessa voz sutil que nos orienta conseguimos atravessar a escuridão e emergir mais conscientes, criativas e livres.

A história começa com uma perda, mas termina com um nascimento.

E talvez seja isso que Vasalisa nos ensine: às vezes, é preciso queimar o que nos aprisiona para que a mulher interior finalmente possa florescer.

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