Manawee: Quando o nome revela a essência

Manawee é um jovem solitário que vive apenas com seu cachorro. Um dia, ele vê duas mulheres gêmeas absolutamente idênticas e se apaixona profundamente. O desejo de Manawee é claro: casar-se com elas. Mas há uma condição imposta pelo pai das moças um velho sábio e cuidadoso.
Para poder desposá-las, Manawee precisa descobrir o verdadeiro nome de cada uma.
O problema é que as gêmeas são tão iguais que ninguém consegue distingui-las. Elas se vestem da mesma forma, caminham juntas, falam quase como uma só. Manawee tenta observá-las, adivinhar, usar a lógica, a aparência, a razão mas falha repetidamente. Sempre erra os nomes.
Cansado e frustrado, ele começa a perceber que não é possível conhecer alguém apenas pelo que é visível.
É então que o cachorro de Manawee entra em ação.
Enquanto Manawee dorme, o cão passa a observar atentamente as moças. Ele as segue, escuta conversas, percebe mínimos detalhes, usa sentidos que vão além da razão humana. O cão nota pequenas diferenças invisíveis aos olhos comuns: gestos, ritmos, tons de voz, atitudes sutis.
Depois de muitas tentativas, e muitas tentações um grande osso que um leão havia deixado, esqueceu o nome… precisou voltar…conseguiu novamente e viu noz-moscada fresca, esqueceu novamente…E lá vai ele buscar os nomes, então é atacado por um homem obscuro, mas luta por sua liberdade. E vai em busca de Manawee com o nome verdadeiro de cada gêmea.
Quando Manawee finalmente pronuncia os nomes corretos diante do pai, a prova é aceita. Ele demonstrou que foi capaz de ver, ouvir e reconhecer a individualidade dentro da aparente igualdade.


O conto de Manawee, do livro Mulheres que Correm com os Lobos, e a busca pelo entendimento dos nomes

William Shakespeare já dizia, em Romeu e Julieta:

“O que há num nome? Aquilo a que chamamos rosa,
com qualquer outro nome teria o mesmo perfume.”

A rosa, aqui, simboliza algo universalmente belo e perfumado. Mesmo que tivesse outro nome, continuaria sendo o que é em essência. Julieta usa essa metáfora para falar dos sobre.nomes que a separam de seu amado: um preconceito incutido pelo meio, um rótulo que tenta definir e limitar o amor.

Embora Clarissa não mencione Shakespeare, ao ler este capítulo, não pude deixar de lembrar da famosa frase e refletir sobre a importância de um nome: aquele pelo qual somos verdadeiramente chamados, e não o sobrenome, que muitas vezes se coloca acima do nome e chega a escondê-lo.

E essa é a essência do conto de Manawee: a busca pelo nome como força de distinção humana, mas também como contenção das seduções superficiais na procura pelo ser desejado.

Por trás de um conto aparentemente estranhíssimo, existe uma mensagem poderosíssima.

Fica comigo e vamos nos debruçar sobre mais esse conto lindo desse livro tão profundo.

O quarto capítulo de Mulheres que Correm com os Lobos é um dos mais curtos, mas, para mim, um dos mais interessantes justamente pela abertura que oferece para refletirmos sobre identidade. Ele traz uma história profundamente contraditória: fala de um homem que deseja casar com duas mulheres gêmeas.

Mais uma vez, a interpretação se faz necessária.

Assim como as gêmeas, Manawee também é duplo: ele é o rapaz e o cachorro. Nessa história, Estés aponta para a dualidade de cada ser humano, o self.
O self é quem você é, por dentro, como um todo.

As gêmeas podem representar a dualidade feminina: talvez razão (o self civilizado) e emoção (o self selvagem). Na interpretação do conto, a autora ressalta que, em diversas comunidades africanas no Caribe, é importante que gêmeos sejam tratados exatamente da mesma maneira, para eliminar qualquer possibilidade de inveja entre eles.

O self-cão precisa aprender a superar as seduções superficiais e a reter os conhecimentos mais importantes.

Uma parte crucial do conto aparece quando existe o alerta que forças masculinas podem assumir energias semelhantes às do Barba Azul ou do assassino Mr. Fox. Por esse motivo, tentam demolir a estrutura dual das mulheres. Esse tipo de pretendente não tolera a dualidade: busca a perfeição, a verdade única, a substância feminina imutável a fantasia da mulher perfeita. Cuidado.

Como é complicado quando homens criam essa utopia da mulher ideal e não conseguem lidar com a mulher real. Em vez de apreciá-la, tentam domina-la.

Os homens amontoados na psique feminina chamados pelos junguianos de animus existe também uma atitude semelhante à de Manawee: aquela que reivindica a dualidade da mulher, que a considera valiosa, acessível e desejável.

Manawee, esteja no mundo interior ou exterior, representa um novo tipo de amante, mais cheio de fé, cujo desejo principal é identificar e compreender o duplo numinoso da natureza feminina.

E aqui que se aprende sobre o poder do nome.

Dar nome a uma força, a uma criatura, a uma pessoa ou a um objeto carrega profundas conotações.

Em muitas culturas os nomes são escolhidos cuidadosamente por seu significado, conhecer o verdadeiro nome de alguém é conhecer a trajetória de sua vida e os atributos de sua alma.

Por isso, o nome verdadeiro muitas vezes é mantido em segredo: para proteger quem o carrega, permitindo que cresça e cumpra seu potencial, e para proteger o próprio nome de ser usado indevidamente.

Estés afirma que conhecer os nomes é, sim, conquistar algo acerca da natureza dual e ser capaz de retê-la.

No terreno simbólico da adivinhação, dizer o nome de alguém é também fazer um desejo ou oferecer uma bênção a cada vez que ele é pronunciado.

E isso é tão verdadeiro que nada é mais significativo do que ouvir o próprio nome sendo dito, em vez de um apelido genérico como “amada” ou “querida”. Pronunciar o nome é um ato de presença, de interesse e de conexão.

Manawee insiste em tentar adivinhar o nome das moças, mas não consegue descobri-lo apenas por sua natureza comum. Seu self-cão age em seu benefício: é persistente. Ele não desiste. Ele quer desposar a mulher.

Só que existe as tentações, o self instintivo precisa ser domado. Em determinado momento, o cão se depara com comida oferecida de forma tentadora, fácil e imediata.
Simbolicamente, isso representa: prazeres que desviam do propósito maior, gratificação instantânea e a busca por atalhos emocionais

O pai, na história não deseja que “as filhas” sejam separadas, não quer que sua essência se dissipe. Age como um bom protetor.

O cão representa a tenacidade psíquica é semelhante ao lobo apenas um pouco mais civilizado, embora, como vemos ao longo da história, nem tanto assim. O cão possui uma audição aguçada, ele percebe o que muitos ignoram.

Nesse momento, o cão deixa a tentação ligada à sedução, e busca o real compromisso, não se fala mais de conquista, mas de certeza.
Aqui, o símbolo é claro trazer a luz situações em que homens podem agir apenas pelo instinto, sem consciência, buscando prazer sem responsabilidade e infelizmente confundir desejo com amor.

Jung observou que é necessário impor algum controle aos apetites humanos. Caso contrário, eles podem esquecer o que os motivava originalmente e ser tomados por aspectos do próprio inconsciente: o desejo de dominar, seduzir ou tirar vantagem das mulheres, ou ainda de preencher o vazio típico do caçador. O cão é constantemente atraído por cheiros, sons e movimentos.
Essa tentação traz a tona a incapacidade de manter o foco e se perder em múltiplos estímulos

E isso traz o perigo de não sustentar a atenção necessária para reconhecer o nome verdadeiro.

No trecho “A conquista da ferocidade”, o self-cão finalmente aprende a controlar seus impulsos, a estabelecer prioridades e a concentrar a atenção. Ele se recusa a ser distraído. Agora, está determinado.

No fim de tudo, o que permanece de nós é a maneira como o nosso nome será dito. É por isso que preservar o nome e escolher com cuidado a quem confiamos nossa história e nossa vida é um ato de profunda responsabilidade.



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