Existe uma história do povo inuit que fala de uma mulher que foi considerada indesejada por seu pai por ter feito algo que ele não aprovará. Por isso, foi lançada de um penhasco ao mar e morreu. Ela foi afundando até o fundo das águas, onde seu corpo foi sendo desitúido até se transformar em um esqueleto preso às profundezas.
Certo dia, um pescador saiu para pescar. Ao lançar sua linha, o anzol prendeu-se nos ossos da Mulher Esqueleto. Ao tentar puxar o peixe, ele acabou trazendo o esqueleto para fora do mar.
Assustado ao ver a figura óssea, o pescador fugiu em pânico. A Mulher Esqueleto, ainda presa à linha, foi arrastada atrás dele. Desesperado, ele correu até sua cabana e tentou se livrar do que o perseguia.
Exausto, o pescador acabou caindo e adormeceu. Durante o sono, a Mulher Esqueleto aproximou-se e começou a desembaraçar cuidadosamente seus ossos, que haviam se enroscado pela corrida.
Enquanto dormia, o pescador teve um sonho profundo. Uma de suas lágrimas caiu de seu olho e a Mulher Esqueleto bebeu dessa lágrima o que fez com que alcançasse seu coração. Após isso, ela tocou o coração do pescador e o seu começou a bater novamente.
A Mulher Esqueleto então recuperou carne, pele e vida, transformando-se novamente em mulher. Ao despertar, o pescador encontrou-a viva ao seu lado agora humana. Ela devoveu o coração ao corpo dele e foi assim que acordaram abraçados. Juntos, eles permaneceram de um jeito bom e duradouro.
Confesso a vocês que este é meu capítulo favorito deste livro, a força dessa história é uma quebra de paradgmas sobre o amor romântico e a força da perenidade de uma relação criada por estrutura e persistência.
Não sei se como eu, vocês leem muitas vezes um mesmo livro, mas sou dessas apaixonadas que se enamoram por bons textos, e esta é minha ligação com esse livro de Clarisse.
A essência do capítulo A Mulher Esqueleto, fala sobre o amor verdadeiro que só nasce quando paramos de fugir daquilo que é real.
No conto, o pescador se apavora ao encontrar a Mulher Esqueleto porque ela representa tudo o que normalmente queremos negar no amor:
- a vulnerabilidade
- o medo da perda
- a finitude
- as partes “feias”, quebradas e mortas em nós e no outro
A essência do capítulo é esta:
amar não é se apaixonar por uma fantasia viva,
mas permanecer quando o amor mostra seus ossos.
Os lobos compreendem isso instintivamente. Seus vínculos são profundos e duradouros. Os seres humanos não são diferentes: nossas necessidades relacionais seguem os mesmos ciclos de vida, morte e vida.
Em culturas como as do leste da Índia e a maia, a morte não é inimiga. Ela participa do nascimento, consola, orienta e transforma. Quem compreende a roda completa da vida não a critica, ao contrário a respeita sua generosidade e suas lições.
Os poetas sempre souberam: não há nada de valor que não passe pela morte, nem que seja a simbólica.
Na atualidade existe a tentativa de criar um “amor perpétuo”, sempre elevado, sempre prazeroso, “equivale à busca por uma máquina de movimento contínuo”…”perfeito”, como hoje encontramos nas redes sociais. A perfeição virou uma sindrome da sociedade atual. E não surpreende que tantos relacionamentos terminem em confusão e sofrimento.
Clarissa propõe que essa história seja lida como uma sequência de tarefas iniciáticas do amor.
- Primeiro, a caça e o encantamento.
- Depois, o desenredar, o medo, a fuga, o confronto com aquilo que realmente foi fisgado.
- Em seguida, a confiança, o repouso na presença do outro, o compartilhamento de sonhos e feridas antigas
- e só então a verdadeira CURA.
Imaturamente muitos se aproximam do amor como o pescador ingênuo: desejando algo que “facilite a vida”, que sirva de “troféu” para ser mostrado e invejado. No início, os amantes frequentemente buscam apenas emoção, distração ou anestesia emocional.
Mas mesmo estes que por vezes não querem a entrega real podem sem perceber, entram num território psíquico sagrado: o domínio da Mulher-Esqueleto.
Nenhum amor atravessa esse território sem perdas. O que morre são as ilusões, as expectativas superficiais, a voracidade de querer tudo belo o tempo todo. No amor, tudo é dissecado. Tudo.
Quando recusamos os ciclos de vida–morte–vida, o relacionamento se torna forçado, artificial, mumificado. A insistência em manter o amor apenas em seu ápice é justamente o que o faz morrer e dessa vez, sem retorno.
Amar tem um custo.
Exige coragem.
Amar é ficar quando cada célula do corpo manda fugir.
É certo pensar que dentro de um único relacionamento existem muitos finais. A fase da fuga, descrita por Estés como “a perseguição e a tentativa de se ocultar” é quando racionalizamos o medo da intimidade: “não estou pronto”, “posso encontrar alguém melhor”, “não quero ser transformado”. A psicologia chama isso de medo do envolvimento.
O sono, no conto, simboliza o renascimento. Nos mitos, dormimos enquanto algo em nós é recriado.
Diz que tudo que procuramos também está à nossa procura; e que, se ficarmos bem quietos, o que procuramos nos encontrará. Ele está esperando por nós há muito tempo. Depois que ele aparecer, não devemos fugir. Descansemos. e vejamos o que acontece em seguida. (p.114)
Sobre o significado de inocência Estés ressalta: Ser inocente é ver com clareza o problema e corrigi-lo. Imagine o impacto disso em todos os ciclos do amor.
Há uma prudência que protege e outra que nasce de feridas antigas. Esta última faz com que muitas pessoas deixem o ouro escapar por entre os dedos, mesmo quando dizem ter encontrado “uma boa pessoa”.
A doação da lágrima, um dos momentos mais belos do conto, revela o poder da emoção verdadeira. Não é o outro que nos cura; a cura acontece quando assumimos o próprio ferimento e o nutrimos com consciência.
Sendo assim o cérebro, exaltado como algo dinâmico e que nos diferencia dos animais, é frágil comparado a função do coração, pois nele se concentra o centro fisiológico e psíquico da vida. E a chave é o Amar como uma criança, sem reservas, sem cinismo, e assim retornar a esse centro.
Não seria útopia dizer que, amar, é suportar inúmeros finais e inúmeros recomeços dentro do mesmo relacionamento. A doação do corpo é uma das últimas etapas desse processo, não a primeira. Pular fases é perder profundidade.
Advirto as mulheres para que não aceite um amante que salte de uma fisgada acidental para a doação do corpo. Insistam no cumprimento de todas as fases. (p. 123)
Assim, a última virá por si só, com conexão, fusão e verdade. Existe um vínculo de alma para alma que mal conseguimos explicar, mas que reconhecemos quando acontece. O caminho do coração é o caminho da criação: de carne, de vida e consequentemente de amor.