O patinho nasce diferente dos outros filhotes da ninhada. A mãe pata o defende das críticas alheias com esmero. Porém, ele era maior, desengonçado e de aparência incomum, ele passa a ser rejeitado pelos irmãos, pelos outros animais e até criticado no quintal onde vive. Sofrendo humilhações constantes. A mãe pata não aguenta mais tanta pressão e diz a ele: “Porque você não vai embora?” E ele desolado decide fugir.
Ele vaga sozinho por pântanos e campos, tentando sobreviver. Durante o outono, vê no céu um grupo de aves brancas majestosas, cisnes e sente uma forte emoção, um desejo inexplicável de segui-los, embora não saiba por quê.
Então chega o inverno rigoroso. O frio torna-se intenso, a comida escassa e os lagos começam a congelar. O patinho nada desesperadamente para manter um pequeno espaço de água aberto, mas acaba enfraquecendo. Exausto, fica preso no gelo.
Um fazendeiro o encontra quase congelado e o leva para casa. Lá, o patinho se recupera do frio, mas o ambiente doméstico é estranho e assustador. Confuso e ainda temeroso, acaba causando alvoroço na casa e foge novamente.
Sozinho outra vez, ele enfrenta o restante do inverno escondido entre juncos e matas, suportando o frio e a solidão.
Quando finalmente chega a primavera, ele vê novamente aqueles grandes pássaros brancos. Sentindo que não tem mais forças para fugir do que quer que seja, aproxima-se deles, preparado até para ser rejeitado ou morto. Ao inclinar a cabeça sobre a água, vê seu reflexo não é mais um patinho feio, mas um belo cisne.
Os outros cisnes o acolhem. Ele descobre que sempre pertenceu àquela espécie. O que antes era motivo de exclusão revela-se, na verdade, sua verdadeira natureza.
“Você não é todo mundo.”
Essa frase, entoada por muitos pais, deveria ser um mantra sobre autovalor e autenticidade. Mas, na prática, ser quem se é constitui o trabalho de uma vida inteira.
No capítulo 6 de Mulheres que Correm com os Lobos, Clarissa Pinkola Estés revisita uma história muito conhecida: O Patinho Feio. Em pouco mais de vinte páginas, a autora mergulha em temas profundos como bullying, indiferença familiar, pertencimento, cultura, autoestima e orfandade psíquica. A mensagem final é simples e poderosa: ele não é feio apenas não pertence àquele meio.
Clarissa inicia falando sobre o arquétipo da mãe. No começo da história, a mãe pata deseja o filhote, protege-o e o defende das críticas. Porém, à medida que a pressão externa aumenta, ela cede. A opinião da comunidade torna-se insustentável, e ela acaba pedindo que ele vá embora.
A mãe não sabe como se posicionar diante do julgamento coletivo: “Ele é estranho, feio, esquisito. O que há de errado com ele?”
Esse conflito revela algo maior. Em muitas culturas, espera-se que a criança nascida em determinado contexto corresponda a um conjunto específico de valores e comportamentos. Quando não corresponde, passa a ser vista como problema.
“Embora sua alma exija ver, a cultura ao seu redor exige cegueira”. Embora sua alma deseje exprimir sua verdade, a alma é forçada ao silêncio.
O capítulo também aborda a ideia da mãe psíquica aquela internalizada dentro de nós. Mesmo quando a mãe concreta já não exerce influência direta, permanece em nossa psique uma “cópia” dela, com as mesmas crenças, valores e limites da época em que fomos criados.
A mãe ambivalente, então, curva-se aos desejos da comunidade em vez de se alinhar ao filho. Muitas vezes, isso tem raízes ancestrais. Ela vive um fogo cruzado psíquico:
- o desejo de ser aceita socialmente;
- o instinto de autopreservação;
- o medo de que o filho seja perseguido ou punido;
- e o amor instintivo que sente por ele.
Quando uma mãe desiste, escreve Clarissa, ela pode ter perdido o sentido de si mesma. Pode estar isolada de seu self selvagem, prostrada por ameaças reais psíquicas ou físicas.
A prostração geralmente se manifesta em três estados: confusão, agitação (quando tem a impressão de que ninguem sente uma solidariedade adequada pela sua aflição) ou abismo (uma reencenação de antigas feridas).
Ao longo da história humana, mulheres foram separadas de seus filhos por guerras, imposições do Estados, etc. Muitas foram ensinadas que só seriam legitimadas como seres humanos por meio do casamento. Muitas foram mães sem terem sido verdadeiramente cuidadas, mães sem mãe.
E há também a mãe-criança: aquela que toda mulher é, especialmente com o primeiro filho. A maternidade, seja aos 18 ou aos 40 anos, é uma travessia transformadora.
Feliz das mulheres que contam com o apoio de mulheres mais velhas, aquelas que transmitem saber, cuidado e experiência. O desejo da autora é que toda mulher encontre, ao longo da vida, outras “mães”: figuras de orientação e sabedoria.
"Cuidemos aqui das questões íntimas da pessoa rejeitada, pois quando desenvolvemos uma força adequada, não uma força perfeita, mas uma força moderada e prática para sermos nós mesmas e para descobrir a que grupo pertencemos, podemos então influenciar a comunidade exterior e a consciência cultural com perícia.
Para quem é diferente, esse é sempre o próximo passo.
E o que dizer do gelo? No conto, o patinho quase congela no inverno. O gelo simboliza a paralisação psíquica, o congelamento da alma. A saída é o movimento. Movimento não congela.
Aja como o patinho: siga em frente, escreva, pinte, dance, exerça sua arte, mexa-se. A expressão é o degelo da alma.
Provavelmente você já deve ter tentado se adaptar a uma situação e não conseguiu, e talvez isso tenha sido um sinal de sorte. Pois, é justamente essa rejeição que a empurra em direção aos seus verdadeiros companheiros psíquicos seja uma linha de estudo, uma forma de arte ou um grupo de pessoas com quem haja afinidade profunda.
É pior permanecer onde não nos sentimos bem do que vagar, ainda que por um tempo, em busca do lugar e das conexões que realmente precisamos. Nunca é errado ir à procura do que nos nutre e nos faz inteiros. Nunca mesmo.
Talvez, então, a frase inicial que recordei ao ler esse capítulo precise de um ajuste. Não apenas “Você não é todo mundo”, mas algo como:
Filha(o), ao longo da vida você perceberá que, muitas vezes, ser igual a todo mundo parecerá o caminho mais fácil. Mas nada me encherá mais de orgulho do que ver você sendo único para si assim como sempre foi único para mim.