Quando falamos sobre o Corpo Jubiloso, tema abordado no sétimo capítulo da obra Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés, somos convidados a questionar os padrões rígidos que definem o que seria considerado belo.
Nesse contexto, Estés apresenta a ideia de que o corpo é multilíngue. Ele se expressa de inúmeras maneiras: capacidade expressiva não verbal do corpo humano, que comunica através de sensações, cores, temperaturas e movimentos. Ele traduz emoções como dor, amor, excitação e insegurança por meio de rubores, brilhos e tremores, agindo como um agente constante de linguagem física e somática.
E sendo ele, uma máquina tão potente e complexa, torna-se inaceitável inferiorizá-lo com adjetivos limitadores, como “feio”.
Para ilustrar a diversidade cultural da beleza, a autora menciona uma amiga com ascendência da Gâmbia, na África, que possui os dentes da frente separados. Aquilo que em muitas culturas ocidentais poderia ser visto como um “defeito” a ser corrigido, em sua cultura ancestral é interpretado como uma “abertura de Deus”, um sinal de sabedoria e de espiritualidade. Esse exemplo revela como os conceitos de beleza são profundamente influenciados pela cultura.
Assim como a ascendência latina da autora, representada por mulheres de estatura baixa e com formas bem delineadas.
Seria então errado defender apenas um tipo de beleza, afinal de certo modo, culminaria em ignorar a própria natureza. e suas diversas formas de expressões e cores.
Nosso corpo também carrega a história de nossos ancestrais. Cada traço, cada característica física pode refletir uma herança ancestral. Mesmo quando não nos parecemos com parentes próximos, ainda assim nosso corpo expressa uma linguagem profunda, a chamada “linguagem do sangue”, que conecta gerações.
Por isso, quando uma mulher é ensinada a detestar o próprio corpo, cria-se um conflito ainda mais profundo: como ela poderá amar o corpo de sua mãe, de sua avó ou de suas ancestrais, se carrega em si a mesma estrutura física? A condenação estética do corpo feminino produz, muitas vezes, mulheres inseguras, marcadas por baixa autoestima e pela constante sensação de inadequação.
No entanto, dentro de cada mulher existe também um impulso de liberdade ainda que sentida como estando sendo aniquilada. Existe o desejo de gritar, de reivindicar respeito pelo próprio corpo por sua forma, por sua idade e por sua história mesmo diante de projeções sociais que insistem em reprimi-lo.
Como afirma a autora: sem o corpo não haveria a sensação de entrar em algo novo, de experimentar elevação, altura ou leveza. Todas essas experiências provêm do corpo. Ele é como um lançador de foguetes, enquanto a alma, em sua cápsula, observa e se deslumbra com a misteriosa noite estrelada.
Dessa forma, é necessário permanecer atento e sensível para reconhecer a alma selvagem em seus inúmeros disfarces. Reconhecê-la é também aceitar o corpo em sua da plenitude, honrando a sabedoria ancestral que ele carrega.
Hoje só quero olhar as estrelas por esse telescópio natural que me transporta a elas.
Ahhh
*resumo crítico do livro Mulheres que correm com os lobos, Clarissa Pinkola Estés.