Você é uma mulher brava? De temperamento forte?
Se a resposta for sim… é sobre você que este texto fala.
É comum que mulheres intensas sejam domadas, adestradas. Com o tempo, sob pressão e opressão, acabam mergulhando em uma espécie de dormência, tornando-se acomodadas. Mas essa natureza não desaparece ela apenas adormece. E, mais cedo ou mais tarde, a ferocidade clama por espaço, exigindo autenticidade.
Para iluminar essa força criativa e instintiva da mulher selvagem, conta-se a história da Menina dos Sapatos Vermelhos. Não é uma história feliz, mas é uma daquelas que nos sacodem por dentro. Daquelas que despertam.
Era uma menina órfã, encontrada vagando, malvestida, com fome, usando sapatos de retalhos feitos por ela mesma. Foi adotada por uma senhora idosa, que lhe ofereceu tudo o que um ser humano precisa: comida, roupas, segurança. Em um gesto simbólico, lançou ao fogo tudo o que a menina trazia inclusive os sapatos que ela havia confeccionado com tanto cuidado.
Quando chegou a idade da crisma, a senhora decidiu levá-la a um sapateiro para comprar sapatos novos. Ao entrar na loja, os olhos da menina brilharam ao ver um par de sapatos vermelhos. Eram vivos, intensos, irresistíveis.
A senhora desaprovou. Eram chamativos demais. Recomendou algo mais discreto. Mas, aproveitando-se da visão limitada da idosa, a menina, em um gesto inocente e impulsivo, escolheu os vermelhos.
Na igreja, os sapatos não foram bem recebidos. Após uma segunda ida, caiu sobre ela uma espécie de maldição: não conseguiria mais tirá-los, e eles a fariam dançar sem parar até a exaustão.
Um lugar que deveria acolher tornou-se opressor. Mais uma vez, ela foi abandonada. Implorou por ajuda, mas foi ignorada. Exausta e desesperada, procurou alguém que pudesse livrá-la dos sapatos. Como não havia solução, o homem precisou retirar seus sapatos e pés de si. E assim os sapatos continuaram dançando floresta lá fora.
A menina, então passou a viver na miséria, mendigando por comida e trabalho. Nunca mais quis saber de sapatos principalmente os vermelhos.
Essa história ecoa uma frase silenciosa, típica de quem sucumbe ao desespero: “Ah, sim, entendo.” Uma aceitação amarga que paralisa, que impede a ação por medo.
Mas onde, afinal, essa menina errou? O que a levou a um destino tão cruel? Talvez tenha sido o abandono de sua própria essência. Ao abrir mão do que criou com as próprias mãos seus primeiros sapatos e se acomodar a uma realidade imposta, perdeu o vínculo com sua autenticidade e com sua força interior.
Os contos de fadas terminam em poucas páginas, mas nossas vidas não. Somos feitas de muitos capítulos, muitos recomeços. Sempre há novas oportunidades de reconstruir o caminho. Não perca tempo amaldiçoando derrotas. O fracasso é um mestre poderoso. Escute, aprenda, insista.
E os pés o que representam? Nos arquétipos, simbolizam mobilidade e liberdade. Ter sapatos é ter meios de seguir adiante. Mas que sapatos você está usando?
Os grupos aos quais pertencemos sociais, familiares, espirituais, profissionais exercem grande influência sobre nós. Eles recompensam, punem, moldam comportamentos, pensamentos e escolhas. Às vezes, nos afastam daquilo que não se encaixa em seus padrões.
Como um animal em cativeiro, podemos desenvolver uma tristeza silenciosa, um anseio inquieto, difícil de nomear. E, nesse estado, corremos o risco de nos agarrar a qualquer promessa de alívio mesmo que isso nos afaste ainda mais de nós mesmas.
Por isso, é essencial manter os olhos abertos. Nem toda proposta de vida fácil é libertadora. O desenvolvimento social é importante sem ele, é difícil avançar no mundo. Mas ele não pode custar a sua essência.
Os sapatos dançando sem controle simbolizam a perda da criatividade, da alegria, da autonomia e a entrega aos excessos e à fuga.
No fim, coragem é seguir o próprio coração.
Quando um ser é exposto à violência por muito tempo, ele aprende a se adaptar. E mesmo quando a liberdade surge, o impulso de fugir pode já estar enfraquecido. Em vez de correr, ele paralisa.
Não há problema nos sapatos vermelhos em si. O problema não está no desejo mas na desconexão.
Dance, sim, com seus sapatos vermelhos. Mas certifique-se de que foram feitos por você. Porque só assim você poderá conduzir, com consciência e poder, os caminhos da sua própria vida.
*resumo crítico do livro Mulheres que correm com os lobos, Clarissa Pinkola Estés.