E vamos ao conto da Pele de Foca:
Era uma vez um homem solitário que caçava e conseguia sustentar-se bem. Ainda assim, era profundamente sedento por companhia.
Certa noite, sob o brilho reluzente da lua, ele avistou algumas mulheres banhando-se ao luar e ficou a contemplá-las, fascinado.
De repente, aquelas mulheres voltaram à sua verdadeira forma: tornaram-se focas novamente todas, exceto uma, a mais alta. O homem, então, pegou a pele de foca dela e pediu que ficasse com ele, fazendo-lhe inúmeras promessas.
Ela aceitou, mas impôs uma condição: queria sua pele de volta no prazo máximo de sete anos.
E assim foi. Ela passou a viver com o homem, tornou-se sua esposa e teve um filho. Porém, à medida que o fim da promessa se aproximava, algo começou a mudar: seus olhos retomavam a forma antiga, e seu corpo começava a lembrar sua verdadeira natureza.
Ela implorava ao marido que lhe devolvesse a pele, mas ele a manipulava, a insultava e a acusava de egoísmo, dizendo que ela estaria abandonando a família.
Enquanto isso, sua transformação tornava-se inevitável. Após muita insistência, ele finalmente devolveu sua pele.
O menino, Ooruk, certo dia ouviu uma voz chamando por ele. Seguiu esse chamado até o mar, onde reconheceu sua mãe agora novamente uma foca. Ela não queria deixá-lo, mas sabia que precisava partir.
Seu avô, outra grande foca, permitiu que o menino fosse ao mar, protegido pelas focas, e ele permaneceu por um tempo ao lado da mãe. Ainda assim, sendo metade humano, não poderia ficar para sempre precisava retornar à superfície.
Antes de se despedirem, a mãe fez uma promessa: sempre que sentisse saudade dela, ele deveria tocar em um de seus objetos, e assim poderia encontrá-la.
Ooruk cresceu e tornou-se um tocador de tambor. Dizem que era comum vê-lo à beira-mar, conversando com uma grande foca a mais reluzente de todas.
Olá, queridos leitores. Você já pensou sobre a importância da sua pele? Já parou, de fato, para refletir sobre isso?
A pele poderíamos intitulá-la como a capa protetora do corpo carrega fragmentos singulares de quem somos e de onde viemos. Assim como ela nos protege, também devemos cultivar por ela o mesmo zelo.
Esse cuidado é constante, pois, como escudo dos órgãos e do nosso ser, é ela que atravessa todas as fases da vida conosco, criando um elo profundo com a nossa evolução na busca por aprendizado e sabedoria para aqueles que se permitem acessar tais atributos.
No conto A Pele de Foca, encontramos uma mulher de uma espécie diferente, um homem sedento por companhia e um filho que se torna o elo entre dois mundos: o da terra e o do mar.
A mulher coloca-se em uma situação de vulnerabilidade. Mesmo consciente dos riscos, aceita a promessa feita pelo pescador e, por impulso, abandona tudo o que conhecia para viver de amor e esperança. No entanto, ao se aproximar dos sete anos, ela começa a se transformar novamente em foca.
Em seu íntimo, dentro da pele humana, sua natureza selvagem clama para ser ouvida. O pescador se recusa a devolver-lhe a pele e ela, por sua vez, implora por isso.
Sendo de naturezas tão distintas, seria possível domar a própria alma? Há um chamado à comunhão consigo mesma. A mulher-foca precisa reconhecer que, embora ame sua família, seu corpo e sua essência pedem o retorno ao seu habitat.
A escolha que antes parecia simples agora se torna dolorosa. Criaram-se laços, criaram-se raízes, nasceu um filho esse elo do eterno. O único meio de permanecer fiel à própria essência, à pele da alma, consiste em manter uma consciência clara e íntegra sobre as próprias dores e propósitos.
Mas afinal, o que são alma e espírito?
Muitas pessoas utilizam esses termos como equivalentes. Nos contos de fadas, porém, a alma é frequentemente apresentada como a progenitora do espírito. Assim, o espírito é um ser que nasce da alma. Ele herda a matéria ou nela encarna com o propósito de experienciar o mundo e levar essas vivências de volta à alma.
E, nesse enlace entre alma e espírito, existe ainda o ego talvez o mais humano de todos.
O ego sente curiosidade pelo mundo da alma, mas frequentemente está voltado à satisfação dos próprios desejos, moldado por ideias, valores e deveres provenientes do mundo externo: nossos pais, mestres e cultura. E, de certo modo, isso também é necessário. O ego é nosso acompanhante, nossa forma de segurança, nosso ponto de apoio no mundo objetivo.
Mas então, qual é o verdadeiro resgate?
O descontentamento pode ser a porta secreta para mudanças profundas e revigorantes.
A mãe e o filho se unem na promessa de uma sintonia eterna. Ela nos lembra que, ao entrarmos em contato com os instrumentos da força psíquica, passamos a sentir o seu sopro vital.
Se quisermos participar dessa integração, o difícil casamento entre alma e ego precisa acontecer o filho espiritual precisa nascer. O resgate está nos objetivos que escolhemos perseguir. A crise de estresse pela qual todos passamos pode, na verdade, ser um chamado de volta para casa. Está na hora.
“Assim que eu puder me afastar… quando for o momento certo… quando o verão terminar… quando as crianças estiverem na escola novamente…”
Desta vez, estou falando sério. É como se acreditássemos que existe uma data misticamente determinada no futuro, quando finalmente estaremos livres para realizar algo grandioso. O número sete, frequentemente associado ao feminino, carrega um simbolismo místico relacionado às fases da lua: nova, crescente, cheia e minguante.
A ideia é que, mesmo diante das adversidades, aprendamos que a cura essencial está no retorno ao lar. Ao que fomos e ao que jamais pode se perder. Ao voltar a ser.