As águas claras: o sustento da vida criativa

Reflexões de uma Mulher em Processo

Caros leitores, acredito que a criatividade é algo mutante: ela se altera, se transforma conforme a nossa inspiração.

E talvez a maior dificuldade do ser humano seja justamente conectar-se com essa tal inspiração.

Alguns dizem que a vida criativa está nas ideias; outros ressaltam que está nas ações. E talvez seja na junção dessas duas dimensões que possamos nos aproximar do que é, de fato, a criatividade.

No dicionário de português, criatividade é definida como a qualidade de quem tem capacidade, inteligência e talento para criar, inventar ou inovar na área em que atua originalidade. É a capacidade de compor a partir da imaginação, de inventar, de dar forma ao novo.

Para Clarissa Pinkola Estés, trata-se de sentir um amor profundo por algo por uma pessoa, uma palavra, uma mensagem, uma ideia, pelo país ou pela humanidade.

Mas qual seria o passo para ouvirmos essa voz, a voz da criatividade?

O local: o espaço é a fonte.

A autora também ressalta, em sua interpretação, uma ideia inspirada na Bíblia: “vá e prepare um lugar para a alma”, numa conotação ao versículo de João 14:2-3, quando Jesus diz: “Vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo…”.

Essa alma é a alma criativa todos nós a possuímos. Ela é estimulada por um sentimento que atravessa o ego e o impulsiona a se tornar real.

Criar é bagunçar o ambiente das ideias e, depois, reestruturá-las por meio da seleção e da organização, até colocá-las em prática. Felizmente, essa criatividade pode materializar-se, criando uma união interdependente entre níveis psíquico, espiritual, mental, emocional e até econômico.

A história deste capítulo é intensa e densa, como tantas outras.

La Llorona conta uma história de paixão e dor.

Tudo começa com uma jovem que se apaixona por um fidalgo muito rico. Paixão, intensidade e entrega são os ingredientes desse amor. Dessa relação nascem duas crianças.

Um dia, o fidalgo anuncia que precisará deixá-la para casar-se com outra mulher rica, escolhida por sua família. É viável, conveniente, socialmente aceitável — o “certo”.

Mas ela não é.

Tomada pelo desespero, vai ao mar com os dois filhos. Em estado de inércia, as crianças são levadas pelas águas. Quando recobra a consciência, já é tarde e decide partir com elas.

No céu, o guardião diz que compreende sua dor, mas que só poderá entrar quando encontrar seus filhos nas correntezas e trazê-los de volta consigo.

Por isso se diz que, quando a noite chega e as águas se agitam, é melhor manter distância do mar: La Llorona pode confundir-se, tentando resgatar seus filhos perdidos.

Nossa…

Como outras histórias de final trágico, essa também ensina especialmente às mulheres o que não fazer e como tentar voltar atrás diante de escolhas infelizes, para reduzir seus impactos.

A dor pode levar o ser humano à perda total de planejamento, ao desespero e à descompensação, conduzindo a situações perturbadoras que, em estado de equilíbrio, jamais aconteceriam.

A satisfação do ego, por si só, pode parecer permissível até importante.

Nessa história, a água surge como símbolo: limpeza, correnteza, as águas turbulentas da psique.

O essencial é manter as águas da própria psique limpas, pois um dos efeitos mais comuns da “poluição” na vida criativa da mulher é a perda da vitalidade.

Esse enfraquecimento atinge todas as fases da criação: inspiração, concentração, organização, implementação e manutenção.

É preciso cuidado com pessoas que inibem a criatividade com frases como:
“o que você faz não está certo”,
“não é bom o suficiente”,
“não é suficiente isso ou aquilo”.

Ou ainda:
“é pretensioso demais”,
“é insignificante”,
“demora demais”,
“é fácil demais” ou “difícil demais”.

A criatividade acontece em momentos, em relampejos. Não caia na armadilha do “eu só…”.

“Eu só preciso arrumar a casa, então…”
“Depois do trabalho…”

E assim o tempo para criar é sempre empurrado para um futuro que nunca chega.

Para criar, é preciso sensibilidade. Criatividade é a capacidade de sentir o mundo ao redor, de escolher entre as centelhas de possibilidades — pensamentos, sentimentos, ações e reações e reuni-las em uma expressão única, carregada de ímpeto, paixão e determinação.

No fim:
Seja selvagem.
Comece.
Proteja seu tempo.
Forje seu verdadeiro trabalho.

Em “A Menina dos Fósforos”, outra história igualmente triste, uma pequena vendedora acaba usando seus próprios fósforos para se aquecer até partir.

Na interpretação psicológica, essa criança vive em um ambiente onde aquilo que possui pequenas faíscas, o início de toda possibilidade criativa não é valorizado.

Se você estiver em uma situação semelhante, de isolamento, subestimação e irrelevância diante de pessoas ou grupos: vire as costas e vá embora. Ressignifique e siga.

Estar com pessoas reais, que nos aqueçam, apoiem e valorizem nossa criatividade, é essencial para manter viva essa corrente.

Do contrário, acabamos congeladas.

*Resenha do capítulo 9 de Mulheres que Correm com os Lobos de Clarisse Pinkola Estés. Psicanalista, poeta e contadora de histórias norte-americana.

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