Você possui algum segredo tão vergonhoso que acredita que ele poderia destruir sua vida social, familiar ou conjugal? Algo capaz de arruinar sua reputação e desclassificá-lo diante dos outros?
Em O Clã das Cicatrizes, Clarissa Pinkola Estés fala justamente sobre essas vergonhas ocultas. Sobre a dor do segredo. Sobre o peso de guardar algo apenas para si.
O mal cometido pode, enfim, ser compreendido de maneira consciente, e então a psique inicia sua tarefa de restauração.
É como se a pessoa criasse um mundo paralelo. Mesmo quando aparenta felicidade, existe sempre aquele assunto, aquela ação do passado que continua ferindo a alma nos momentos de solitude.
E talvez o pior seja isso: a dor da vergonha parece não poder ser partilhada, porque afronta as morais culturais da sociedade em que vivemos. Afinal, parafraseando Estés, “a cultura é a família da família”.
Os valores morais precisam ser respeitados e, quando não são, muitas vezes acredita-se que devam ser escondidos. Mas existe solução: a busca compassiva por alguém singular, alguém que guardará o segredo com proteção e silêncio; alguém que, ao ouvir a história, não julgará, mas tentará compreender com empatia.
Isso não é tolice. É inteligência emocional suficiente para entender que seres humanos erram ou são feridos pelos erros dos outros. E essas feridas deixam marcas. Cicatrizes que, de tempos em tempos, voltam a sangrar. Talvez o início da cura esteja justamente na fala.
Uma vez, enquanto fazia um relatório de leitura para uma pessoa, sugeri que ela expressasse suas dores e angústias a alguém de confiança. Ela me respondeu:
— Mas isso envolve confiança. E eu não consigo confiar em ninguém.
Fiquei impactada. Surpresa. Mas compreendi que isso é mais comum do que imaginamos.
A fala mal utilizada e repassada transforma-se em fofoca, ou pior, em calúnia, aumentando ainda mais a vergonha e a dor. Porém, guardar um segredo apenas para si também é privar a alma da possibilidade de cura.
Por isso, caso não tenha alguém em quem confiar, procure um profissional que possa auxiliar no processo adequado de acolhimento e tratamento.
No capítulo, Estés narra a história da garota dos cabelos dourados, assassinada e lançada ao silêncio. Ainda assim, sua voz retorna. Porque a alma ferida jamais desaparece por completo. O que é sufocado na superfície continua vivendo nas profundezas da psique, aguardando o momento de emergir e ser reconhecido.”
Todos nós possuímos segredos. Alguns nasceram em momentos de fragilidade, insegurança ou ingenuidade. Situações que, em condições normais, talvez jamais permitíssemos ou cometêssemos.
E é justamente na maturidade adquirida ao longo da vida que reconquistamos as ferramentas para curar a dor caso tenhamos coragem suficiente para buscar respostas e encontrar os curativos para a alma.
O remorso e o arrependimento são os primeiros passos para que, depois, possamos alcançar o perdão.
Porque admitir um erro é muito mais significativo e valioso do que justificá-lo.
Não existem duas verdades absolutas nem dois caminhos perfeitamente corretos. O que existe é a capacidade de compreender as situações, diferenciá-las e buscar transformação, em vez de viver eternamente no martírio. Isso promove uma segunda chance ou até mesmo a oportunidade de ajudar outras pessoas através da própria experiência.
Saibamos, então, que o clã das cicatrizes não é singular: ele é coletivo. E se você possui um segredo da alma e consegue identificá-lo, busque a cura para transformá-lo em aprendizado.
Porque todo aprendiz que adquire um conhecimento profundo já não deseja permanecer na dor da ignorância.
Você apenas atravessou a cicatriz. Criou um luto silencioso ao longo do tempo até decidir comunicar sua dor de maneira íntima e secreta talvez escrevendo em um diário sem julgamentos.
Compartilhou para libertar-se da prisão mais selvagem do ser humano: a própria psique.
Ao final, Estés sugere algo que costuma propor às suas pacientes: ela lhes entrega um manto e pede que desenhem, criem ou bordem nele todas as feridas de suas vidas.
E então ela diz que, quando lhe perguntam quantos anos tem, responde:
— Dezessete.
Dezessete feridas de guerra. Dezessete feridas vencidas.
Porque ela também pertence a esse clã. O clã das cicatrizes…todos pertencemos.
Resenha do capítulo 13 do livro Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés, psicanalista, poeta e contadora de histórias norte-americana.