É algo entre o que fere e o que liberta, dores que pedem abrigo, outras, ruptura.
Às vezes, é na raiva que o limite nasce, e no perdão, que se encontra a cura.
É sobre isso que este capítulo nos convida a refletir. Um capítulo para ser lido devagar. De tão profundo e preciso, algumas frases merecem ser mantidas na íntegra, preservando a força com que foram escritas em Mulheres que Correm com os Lobos.
As três histórias apresentadas caminham por esse território sensível: começam pelo reconhecimento e pelo uso da raiva não como destruição, mas como sinal de limite, como algo que precisa ser escutado para então, aos poucos, transmutarem-se na última narrativa, que aponta para a busca do perdão.
Para não alongar demais esta resenha, não descreverei cada história em detalhes. Ainda assim, elas estarão presentes ao longo do texto, atravessando as reflexões, como ecos que nos ajudam a compreender que tanto a raiva quanto o perdão têm seus lugares e que reconhecê-los talvez seja uma das tarefas mais difíceis e mais humanas que existem.
Era uma vez uma mulher que vivia em uma floresta perfumada de pinheiros. Seu marido havia lutado por muitos anos na guerra e, ao retornar, já não era o mesmo. Estava irreconhecível: não era mais gentil, nem desejava viver ao lado dela preferia o isolamento da floresta.
Desesperada, a mulher procurou uma curandeira que vivia em uma gruta. A velha, com sua sabedoria silenciosa, lhe deu uma tarefa incomum: trazer um pelo do Urso da Meia-Noite. Somente assim, disse ela, seu marido poderia ser curado.
Movida pelo amor e pela coragem, a mulher partiu em busca do animal. Durante o caminho, a própria floresta parecia guiá-la. Ao encontrar um grande rastro, uma enorme bosta, sinal de que o urso estava por perto seu coração se apertou, mas ela seguiu adiante.
Quando finalmente o encontrou, manteve distância e começou a alimentá-lo aos poucos. No início, o urso reagiu com agressividade, como se quisesse atacá-la. Ainda assim, ela persistiu. Com paciência e delicadeza, aproximou-se dia após dia, até que, em um momento de confiança, implorou: precisava apenas de um único pêlo de seu pescoço para salvar seu marido.
O urso permitiu. Mas, no instante em que ela retirou o pêlo, ele se enfureceu e avançou. A mulher correu, guiada e protegida pela própria floresta, até conseguir escapar.
Orgulhosa e aliviada, retornou à curandeira com o pêlo em mãos. A velha confirmou: era, de fato, um pêlo do Urso da Meia-Noite. Então, sem hesitar, lançou-o ao fogo, reduzindo-o a cinzas.
A mulher, indignada e confusa, questionou o gesto. Foi então que a curandeira lhe revelou: a mesma paciência, coragem e persistência que ela havia usado para se aproximar e “domar” o urso era exatamente o que ela precisaria para curar o coração de seu marido.
O pêlo do percoço do urso é um talismã, para os japoneses este animal é sagrado, pois é simbolo de lealdade, sabedoria e força.
Essa história é talvez a mais simples de interpretação. Ela ensina sobre paciência, ser gentil com o ser furioso e lhe dar tempo para superar sua raiva através da solitude (ligada a autoconexão, descanso emocional e reflexão), no livro a autora cita a introspecção.
Para isso existe a crença Japonesa Budista o Zen, ao citar a questãos do auxilio da floresta no conto.
Antes do zen, as montanhas eram montanhas, e as árvores eram árvores.
Durante o zen, as montanhas tornaram-se tronos dos espíritos, e as árvores, vozes da sabedoria.
Depois do zen, as montanhas voltam a ser montanhas, e as árvores, simplesmente árvores.
O Zen é a experiência direta da realidade, em vez de explicações teóricas ou crenças complexas, por isso, quando alguém diz “estar zen”, geralmente quer dizer estar calmo, centrado e em paz, embora o sentido original seja mais profundo: é um estado de presença lúcida, mesmo em meio ao caos.
E imagina a paz que aquela mulher precisou cultivar para cumprir sua missão. Não se tratava de ausência de medo, mas de uma estranha clareza que nasce quando se escolhe seguir adiante apesar dele.
Era necessário confiar no próprio propósito, sustentada pela promessa da curandeira, enquanto permanecia plenamente presente em meio ao perigo iminente, tanto na vastidão imprevisível da floresta quanto na possibilidade real de morte diante do Urso da Meia-Noite. Ainda assim, ela seguiu.
“Nenhuma de nós, pode fugir inteiramente da nossa história. Sem dúvida podemos mantê-la num segundo plano, mas ela está ali do mesmo jeito.
Em As Árvores ressacadas, segundo conto:
Um homem, incapaz de conter o próprio ódio, procurou um sábio e pediu ajuda para aprender a controlar sua raiva. O sábio, então, lhe disse que, por meio da servidão e do auxílio ao outro, ele poderia aprender a dominar esse sentimento.
Assim, o homem passou a oferecer água a viajantes que cruzavam seu caminho. Anos se passaram nessa prática silenciosa, até que, um dia, um viajante recusou de forma ríspida a água que lhe era oferecida. Nesse instante, o homem foi tomado novamente pela raiva e acabou tirando a vida daquele viajante. Depois do ato, sentiu profundo arrependimento e passou a se culpar por não ter aprendido nada.
Logo em seguida, um homem a cavalo, ligado à coroa, aproximou-se e disse:
— Graças a Alá, você matou o homem que estava a caminho para assassinar o rei.
Essa história não fala sobre morte ou execução. Em sua leitura simbólica, ela trata da compreensão do uso da raiva: não como destruição descontrolada, mas como discernimento sobre quando ela deve ser contida e quando sua ação se torna necessária. Trata-se também de entender o uso da palavra no momento certo, ou da ação como instrumento de transformação e evolução.
Agora, é necessário transmutar este capítulo e adentrar o tema do perdão.
Há um momento na nossa vida, geralmente na metade do caminho, em que somos convidados a tomar uma das decisões psíquicas mais importantes para o nosso futuro: tornar-nos amargos ou não.
No livro, a autora se refere especialmente às mulheres, que costumam atravessar esse limiar por volta dos quarenta anos. No entanto, trata-se de um processo humano mais amplo, vivido por ambos os sexos.
É frequentemente uma fase em que muitas pessoas dizem “basta”. Chega. E nesse movimento, podem surgir rupturas inevitáveis: corações partidos, casamentos desfeitos, promessas abandonadas, caminhos que já não fazem sentido.
Nesse ponto, torna-se necessário um recomeço. Um reinício não como retorno ao que era, mas como reconstrução a partir do que se tornou consciente.
Aos vinte as mulheres já passam por centenas de morte. Elas pretendiam uma direção e talvez tenham sido levadas as outras.
A primeira coisa a pensar-se é porque você precisa perdoar alguém? Bom, porque provavelmente foi corroído pela magóa e ressentimento.
“Para quem elaborou algum trauma, quer ele tenha sido provocado pela crueldade, negligência, falta de respeito, falta de responsabilidade, arrogância ou ignorância de alguém , quer por obra do destino, um dia chega a hora de perdoar”.
“A raiva constante é um fogo que queima sua própria energia vital”.
Não vou, porém, lhe dizer a mentira deslavada de que você tem condições de eliminar a raiva por completo é uma mentira. É um processo que exigirá limpeza em períodos ciclícos.
A cura é o perdão. E Estés aponta quatro estágios.
- Deixar passar: deixar a questão em paz
- Controlar-se: reiniciar a punição
- Esquecer: afastar da memória, recuar-se a reprisar
- Perdoar: o abandono da dívida
Exige deixar de pensar provisioriamente na pessoa e no acontecimento. Tire férias do assunto.
No sentido de abster-se de punir, parar de guerrear pelas palavras não ditas, de punir-se pela não ação. Significa ter paciência, resistir, canalizar a emoção.
Significa afastar a lembrança, recusar-se a reprisar um assunto, em outras palavras, deixar de lado, soltar, especialmente da memória. Precisa-se retirar o assunto do palco que não mais pertence.
Algumas pessoas optam pelo perdão total: liberando a pessoa de qualquer tipo de reparação para sempre. Outras preferem interromper a reparação no meio, abandonando a dívida , alegando que o que está feito e que a compensão já é suficiente. Outro tipo gera a isenção da pessoa de qualquer reparação emocional.
E enfim, como você sabe que perdoou?
Você percebe quando a raiva deixa de ocupar o centro e dá lugar a uma tristeza mais serena em relação àquela circunstância. Quando, em vez de irritação, surge uma espécie de pena pela pessoa envolvida. Quando já não há mais palavras ou argumentos internos a serem repetidos sobre aquilo como se a história tivesse, enfim, perdido o poder de ecoar dentro de você.
Talvez tudo tenha terminado como nos contos de fadas, com um “viveram felizes para sempre”. Mas, sem dúvida, há algo ainda mais profundo acontecendo: um novo “era uma vez” começa a se formar à sua frente, esperando para ser vivido de outro modo, com mais consciência, leveza e liberdade.
Este é um daqueles capítulos em que a explicação da autora é tão envolvente e profunda que a vontade é simplesmente transcrevê-lo na íntegra. Ainda assim, deixo o convite para que cada leitor busque o texto completo, caso se sinta tocado por ele, pois há experiências que só ganham corpo quando são vividas na sua totalidade.
Resenha do capítulo 12 do livro Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés, psicanalista, poeta e contadora de histórias norte-americana.