Caros leitores,
Vocês já entraram na selva subterrânea do próprio inconsciente e lá permaneceram até possuírem forças suficientes para seguir em frente?
Desta vez, vou fazer diferente vou explicar o conto descrevendo ele ao mesmo tempo, e voilà.
Em A Donzela sem as Mãos, o enredo se mistura a traços da personalidade humana. Ingenuidade, ignorância, crueldade, impotência, calúnia e tirania fazem parte da narrativa.
O mal da história surge disfarçado, como sempre.
E tudo começa com um moleiro muito pobre que vivia próximo a uma estrada. Seus únicos pertences eram uma pedra de moinho e uma macieira. Certo dia, passa por ali um homem que lhe faz uma proposta:
— Vou lhe dar riqueza se você me entregar o que está atrás da sua macieira.
Intrigado, o moleiro aceita o acordo. Ao chegar em casa, encontra abundância por toda parte, e até suas roupas haviam sido substituídas por outras mais sofisticadas. Então conta à esposa o que aconteceu.
Ela fica indignada:
— Marido, nossa filha estava atrás da macieira!
Temos aqui o pacto equivocado. Surge uma clara percepção da falta de astúcia desse pai, que se deixa seduzir pela possibilidade de uma vida estável e confortável. O acordo previa um prazo de três anos para que o homem retornasse e levasse a jovem.
Esses três anos entre o pacto e o retorno do maligno representam um período em que a donzela ainda não tem plena consciência de que ela própria é a vítima do sacrifício.
O simbolismo do número três segue um padrão recorrente nos contos de fadas: a primeira tentativa falha, a segunda também, e somente na terceira algo se concretiza.
O esqueleto estrutural dessa história é o tempo. Trata-se de um conto marcado pela cronologia e pelo uso simbólico dos números.
Após os três anos, chega a hora de cobrar o trato. E então a donzela chora, chora intensamente. Suas lágrimas transformam-se em um bálsamo que impede que ela seja tomada pelo maligno.
Essa passagem traz à tona a força das emoções e mostra como expressar a própria verdade pode proteger o indivíduo do mal. Existe uma força invisível nas lágrimas: elas nos colocam em estado de alerta, fazem-nos recordar das dores sofridas e criam um escudo protetor contra aquilo que nos feriu.
A lágrima é proteção, desde que não nos consuma. Quando acolhida e compreendida, ela se transforma cura e limpeza.
O pai, pressionado pelo medo de perder a casa, os bens e a riqueza conquistada, é obrigado a cortar as mãos da filha, pois o homem maligno não consegue tocá-la enquanto ela permanece protegida por suas lágrimas.
O pai falha. Corta as mãos da filha, e ela parte sem destino, em busca de uma nova vida.
Ele foi fraco.
Durante sua jornada, ela entra na selva subterrânea da alma. Confia no caminho e segue sem rumo até chegar a um castelo. Lá, vê frutas em uma árvore. Está faminta. Então, de maneira quase milagrosa, o próprio galho lhe oferece uma fruta para comer.
Esse acontecimento chama a atenção dos empregados do rei, que contavam regularmente os frutos do pomar real. Pouco depois, de forma ainda mais mágica, o rei apaixona-se por ela.
Os dois se casam.
Mas o rei precisa partir para cumprir compromissos do reino e deixa a donzela, agora grávida, aos cuidados de sua mãe, “a sábia”.
É nesse momento de afastamento entre os enamorados que o maligno retorna à cena para destruir o casamento da jovem.
E então começam as calúnias. Mensagens são interceptadas e adulteradas. Primeiro, chega a falsa notícia de que a rainha havia dado à luz uma criatura metade humana, metade cão. Depois, outra correspondência falsificada ordena a execução da mãe e da criança.
A sogra, mulher sábia e perspicaz, aquela que vê além das aparências, decide agir de outra forma. Em vez de cumprir a ordem, manda a rainha fugir.
Durante essa nova travessia, a donzela encontra abrigo na floresta. Em meio à dor, é acolhida, cuidada e protegida.
Nesse ambiente de amparo e recolhimento, ela recebe ajuda e, magicamente, suas mãos começam a crescer novamente.
Quando o rei finalmente descobre tudo o que aconteceu, parte em busca da esposa e do filho. Leva sete anos para encontrá-los.
O número sete não é por acaso, é um número de iniciação. Na psicologia arquetípica existem muitas referências sobre o número sete. As grandes transformações na vida do ser humano se dão pelos ciclos dos sete anos. 07, 14, 21, 28, e assim vai…
E nesse conto é ressaltada essa passagem de tempo tão simbólica.
No primeiro momento, o rei não a reconhece. Depois, porém, percebe que aquela mulher é sua esposa.
E assim, mesmo após atravessarem o sofrimento, a separação, a calúnia e o mal, conseguem alcançar um final feliz.
Talvez seja essa a grande mensagem do conto: para que algo novo nasça em nós, muitas vezes precisamos atravessar a floresta escura do inconsciente, perder partes de quem éramos e confiar no caminho, mesmo quando ele parece não levar a lugar nenhum.
Resenha do capítulo 14 do livro Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés, psicanalista, poeta e contadora de histórias norte-americana.