Um dos despertares mais significativos na vida de uma mulher é a passagem da infância para a adolescência. É nesse momento que se inicia a ativação da própria sexualidade.
Independentemente da idade, algumas iniciam precocemente, de forma imatura; outras mais tardiamente; e outras no tempo que lhes parece adequado. Ainda assim, todas atravessam, à sua maneira, esse rito de passagem.
Trata-se de uma espécie de fagulha interna, a paixão, que surge quando há a relação entre sentir-se bonita, desejada e estar enamorada, ou acreditar estar.
Vulgarmente, esse período sagrado, que deveria ser discutido e compreendido com respeito e cuidado, muitas vezes é tratado de forma desrespeitosa ou banalizada.
Estés aborda três palavras e seus significados:
Dirt (sujeira): do inglês médio drit, provavelmente do islandês, significando excremento. Seu sentido foi ampliado para incluir imundície, como solo e poeira, e também obscenidade de qualquer natureza, especialmente na fala.
Dirty word (palavrão): uma palavra obscena, mas também utilizada para designar algo que se tornou social ou politicamente impopular, muitas vezes por difamação, críticas imerecidas ou por não se alinhar às tendências vigentes.
Obscene (obsceno): do hebraico antigo ob, relacionado a mago ou feiticeira.
Diante disso, pode-se pensar: seria tudo fruto de difamação ou uma simbologia associada a figuras marginalizadas?
O que seria essas palavras e suas conotações reais? É nesse contexto que existe a brincadeira dos contos que misturam significados; aqueles de duplo sentido.
Sobre o corpo feminino e sua força, Clarissa descreve os seios como membros sensoriais, órgãos psíquicos, sensíveis à temperatura, ao medo, à raiva e ao som. São órgãos dos sentidos tanto quanto os olhos.
Para Jung, quando alguém o procurava por um problema sexual, muitas vezes o verdadeiro conflito era de ordem espiritual; e, ao contrário, questões aparentemente espirituais frequentemente tinham raízes na sexualidade.
Aprofundando essa perspectiva saindo do livro, dentro da psicologia analítica de Carl Jung, o problema sexual é frequentemente um sintoma de uma ferida afetiva ou de uma disfunção nos relacionamentos, e não apenas uma questão física.
Jung afirmava que, quando há um problema sexual, ele só pode ser resolvido pelo amor, pois não se deve separar sexualidade e amor.
A sexualidade ou a ativação do corpo por meio da consciência desperta um chamado interno: um movimento da alma, uma conexão com o instinto mais profundo. Não se trata apenas do sexual, mas do vital.
É essa energia que impulsiona o desejo, a criação e a busca por algo além do que é seguro. É o desejo de crescer e de conquistar a própria independência.
Para Clarissa, o desejo (inclusive o sexual) não é algo errado ou a ser reprimido, mas uma força natural da psique parte da “Mulher Selvagem”, uma expressão da vida pulsando dentro de cada mulher.
Os contos apresentados no capítulo abordam histórias de cunho sexual, mas também revelam a conexão entre mulheres quando compartilham esse entendimento. Há um riso mútuo, um reconhecimento profundo que parece surgir apenas quando almas femininas se encontram.
Isso cria uma conexão única e singular, que talvez o homem não compreenda completamente.
Particularmente, a história do general Eisenhower em Ruanda é uma das mais engraçadas, por misturar também a ingenuidade. Ao pedir ao chefe da tribo que organizasse um cortejo com mulheres vestidas adequadamente, o chefe pediu aos colonizadores que providenciassem saias e blusas para todas.
No dia do evento, porém, as mulheres decidiram que não gostaram das blusas e, para não serem reconhecidas, colocaram as saias sobre o rosto. O único problema é que estavam só com as saias.
Estés relata que essa história apareceu em uma revista e que, ao ser lida em voz alta entre mulheres de sua família, provocou gargalhadas enquanto os homens estavam ausentes, enviados para pescar.
Assim, as mulheres, como em um antigo e secreto clube, puderam falar, rir e viver a companhia umas das outras.
Resenha do capítulo 11 do livro Mulheres que Correm com os Lobos, de Clarissa Pinkola Estés, psicanalista, poeta e contadora de histórias norte-americana.